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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ao Mundo dos sonhos - capítulo 8

Estranho Deja Vu

1
Juliano situava-se no porão da estranha garota que chorara e o arrastara para lá. Estava com pressa. Cada segundo latejava pesadamente em sua cabeça. Precisava saber se Suzana estava segura, sequer viva. No entanto, a extrema complexidade da situação o afundava em dúvidas, e aquela menina era a única que falara com ele.
- Como o rei sabe quando alguem está na rua? Ele não fica o tempo todo na torre do relógio? - Ele perguntou.
- O rei tem poderes fantásticos. Quando essa cidade foi construída, fizeram um grande espelho mágico embaixo dela. Esse espelho reflete os maiores sonhos de quem o vê. Quando o rei chegou, construiu sob esse grande espelho um outro espelho mais poderoso, chamado "contra-espelho".
- Um espelho sob um espelho? Por que? Que coisa sem sentido.
- Vou tentar resumir: um espelho normal reflete a luz que incide sobre ele. O que incide sobre o espelho mágico é a projeção perfeita do seu futuro criado pela imaginação do seu inconsciente. Por exemplo, no centro da cidade tem uma fonte, escavada a muito tempo. Quando olho dentro dela, o reflexo que vejo é uma criança, já que o grande sonho da minha vida é ter um filho . - Juliano afirmou com a cabeça, olhando fixamente para a menina, que continuou - Embaixo desse espelho, o rei colocou um engenhoso 'contra-espelho', um espelho mágico que reflete inversamente o que sonhamos, que são as sombras dos nossos sonhos. Quando alguém desobedece as ordens do rei, tem sua existência devastada por um vulto escuro que denominamos 'exército das sombras'.
- Então quem desobedece o rei, some. É isso?
- Exatamente.
- E tem algum lugar que não é afetado por esse exército? - Juliano perguntou
- Sim, na torre do relógio, onde vive o rei.
- Então eu vou pra lá, bater um papo com ele. De alguma maneira, essa história toda é muito familiar pra mim, mas não sei explicar. - Forçou as mãos sobre os joelhos e se levantou.
- O minuto vai trocar, então você tem que correr muito rápido. Cerca de 500 metros perto da torre não há onde se esconder, se o minuto trocar e você estiver na rua, é possível que nunca mais veja a luz do dia, pretende mesmo fazer isso?
- Com certeza. Mas não se preocupe, não morro antes de ver Suzana.
- Algo muito intenso em seus olhos me diz que você pode conseguir, mas não vou perguntar mais nada, prepare-se. Quando eu disser, você começa a correr.
- Certo - Ele se prontificou em uma posição agachada, como um corredor que dará mais do que 100% de si mesmo na próxima corrida.
- Ah - a menina interrompeu sua concentração - Mais uma coisa: enquanto estiver se dirigindo à torre, não olhe para ela, senão você não sairá do lugar, entendeu?
- Mais uma das travessuras do rei? - Ele perguntou sarcasticamente.
- Sim. Prepare-se...... - Olhou para o relógio em seu pulso, enquanto Juliano se perguntava se Suzana conseguiria chegar na torre sem saber que não deveria olhar para ela. Bem, não havia mais o que pensar, só em correr.

- Vá!

2

Suzana continuava a caminhar em direção ao relógio, sempre o encarando com a esperança que ficasse pelo menos um centímetro aparentemente mais perto, mas a torre nunca mudava. O tempo passou, e as pessoas que estavam caminhando começaram a correr para dentro das casas brancas e se esconder, muitas se aglomerando em despensas e crianças apertando-se em gavetas.
Estranhava muito tudo isso, mas não tinha o que fazer. Continuou a caminhar em direção a torre do relógio. Percebeu então que todas as pessoas que podiam vê-la a fitavam com um espanto total, como se tivessem visto um fantasma. Como não tinha uma grande preparação física, essa caminhada um cansaço e cãimbras, mas ela não cessou.
A torre não parecia estar mais perto, mas ela passou por algo inédito naquela estranha cidade: em um certo ponto no chão havia uma pedra trincada, que soltara e deixara uma fresta com uma superfície muito lisa, parecida com um espelho. Quando Suzana chegou mais perto para olhar, viu que aquela pedra parecia muito com um espelho, que refletia um pano branco que balançava levemente com o sopro do vento. Chegou a conclusão que era um vestido de noiva, e então chegou a conclusão que estava delirando.
- Um vestido de noiva, mas que diabos! - Resmungou, e então fechou os olhos, riu alto e continuou caminhando.
Não havia nada mais o que fazer, além de rir e caminhar.

3

Como uma flecha lançada por um índio afim de abater sua presa, Juliano atravessava a cidade, olhando para frente, mas nunca para cima. Se houvesse algo alto o suficiente em que pudesse bater, não conseguiria desviar a tempo, mas era um risco que tinha que correr. De fato, correr era a sua principal meta no momento.
Em um certo ponto, ouviu a gostosa risada de sua amada, daquelas que ele não ouvia a muito tempo. Olhou brevemente para o lado e viu Suzana, que sumiu em um milésimo de segundo. Pensou que já estivesse tendo alucinações daquela cidade maluca, e desviou o olhar, mas evitando olhara para a torre, virou-se para uma placa que dizia "Você está saindo de Reflexo Destrutivo, por favor, retorne a cidade ou sofra as consequências". Percebeu então, por que tudo aquilo era tão familiar. Reflexo Destrutivo era um livro, que Suzana era apaixonada e que com alguma frequência ela contava a ele as coisas fantásticas que aconteciam na história, e tudo que a garota contou a ele, ela já tinha explicado antes, em Porto Alegre.


continua...

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