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sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Universo de um instante - capítulo 3

Síndrome
1

Em uma tarde de junho, o inverno avançava sonolentamente enquanto casais apaixonados passeavam de mãos dadas e cachecóis combinando pelos parques floridos de Porto Alegre. Um deles especificamente, interessa à nossa história: Juliano e Suzana. Mas nessa tarde eles não estavam passeando, e tampouco de mãos dadas.
De tempos em tempos, como todo casal, eles brigavam. A diferença é que esse intervalo para eles era extremamente mais curto. Juliano e Suzana são exemplos perfeitos de pessoas incompatíveis que se amam. Se o sentimento é forte o suficiente para superar as centenas de milhares de detalhes que conduzem na direção errada nessa avenida de mão única que chamamos de relacionamento, a união irá perdurar. Nesse caso é quase impossível saber o que é mais forte, pois para alguns amigos em comum, esses dois revezam diariamente entre olhares que dizem "estamos ligados pela eternidade" e "eu não quero mais te ver".
No entanto, o amor que ata o coração dos dois, é corajoso. E desejando céus mais altos, decide apostar tudo que tem nessa garota, Carolina, que entrara na vida deles e de tantos outros como ninguem. Naquela tarde, Juliano e Suzana brigaram de uma maneira horrível; Suzana foi pra casa e chorou como se voltasse a ser uma garota de 16 anos que foi deixada pelo primeiro amor, e Juliano teve de cumprir suas obrigações no bar "Versálias" para que pudesse sustentar sua namorada e a si mesmo. Ao chegar no bar, ele reparou que Seu Teófilo colocara sinos na porta para alertar clientes, pensou consigo como aquela idéia podia ser genial, mas em pouco tempo o barulho ensurdecedor do pêndulo interior contra o metal banhado a ouro irritaria até o mais calmo cliente. Juliano achou que aquilo fosse simplesmente estresse causado pela briga com Suzana e tentou ignorar. Fez seu trabalho como garçom de balcão muito bem, como sempre. Alem do mais, a expressão sonora que Renato consegue tirar daquele pedaço de armário era incrível, distraindo Juliano da martelada que os sinos davam em sua mente. Em um certo momento, a sensação de transporte que a valsa nº9 de Renato exaltou foi tão intensa que Juliano esqueceu de tudo que o cercava; o bar, a cidade, até mesmo o pianista, e todas as coisas fúteis, exceto o grande amor da vida dele, Suzana, a razão de sua vida, o sol que iluminava as planícies escuras de seu coração. De repente todo o universo simplesmente acabou em uma fração de segundo, e tudo que restara dentre todos os seus aspectos fora a apreciação que Juliano sentia por Suzana. Ele percebeu que não haveria outro momento, e nada mais importava, ele tinha que falar com Suzana e provar pra ela que nada superava o sentimento mútuo entre os dois; queria ve-la mas sabia que teria que esperar até de noite e sentia-se triste por isso. Queria um sinal, uma mensagem divina, uma apresentação personificada do deus que ele tanto orava se precisasse, mas tinha que sair dali e ver Suzana.

2
Ele voltaria a realidade quando os sinos de marca todash o despertassem, criando uma dissonância que quase fez Renato abandonar a peça. Uma mulher entrara no bar correndo acompanhada por uma menina que chorava. Os poucos clientes que estavam no bar saíram para ver o alvoroço que se formava la fora. Ela pediu a Renato que chamasse uma ambulância, e ele fez prontamente.
Enquanto chamava pelo socorro, Renato serviu à menina um copo d'agua para que se acalmasse, e a moça mais velha se aproximou, aparentemente iria contar o que aconteceu. Juliano então se dirigiu aos três, pois estava mais curioso com o que estava havendo do que desapontado por ter sua viagem astral cancelada.

- Um velho, de barba e roupas sujas, um mendi.... - então olhou para a menina que a encarava furiosamente - um senhor, que esta todos os dias na frente do Versálias acabou de ter uma convulsão, há pessoas la fora mas ninguem se prestou a chamar ajuda.
Alinhar à esquerda
- E como voce sabe que foi uma convulsão? - perguntou Juliano, e a moça respondeu explicando-se;
- Eu não sei, quem falou foi uma moça loira de olhos azuis que está la fora, de fato foi ela quem me pediu para vir aqui pedir ajuda.
- Essa moça estava com uma blusa azul? - perguntou e Juliano, e ao ver que a moça respondera afirmativamente balançando a cabeça, dirigiu-se rápido para fora do estabelecimento.

3
Então Renato continou o interrogatório.
- E essa menina bonita, por que choras?
- Bem, ela é filha do senhor que está doente.
- Ah, entendi. Mas não se preocupe, os médicos chegarão e seu pai vai estar bom logo-logo.

Então pela primeira vez desde que Carolina encontrou a menina, ela falou. Sua voz transitava entre as vozes das cantoras líricas com um forte sotaque gaúcho estridente e uma sensibilidade que gerava a delicadeza de uma criança.

- Eu não estava chorando por que ele passou mal....digo, por isso tambem, mas na verdade por que eu não via meu pai a semanas. Minha mãe ficou muito preocupada e eu tive que vir atrás dele. Finalmente achei mas certamente minha mãe está muito mais preocupada por que eu saí sem avisar.
- Então temos que avisar sua mãe da situação agora mesmo - disse Carolina - Voce sabe o telefone de casa?
- Não. - então Renato perguntou
- Mas indo daqui voce sabe voltar não?
- Tambem não, eu cheguei nessa rua por que me perdi, então começei a andar a esmo seguindo um pressentimento, e acabou dando certo.
- Bom, então o que podemos fazer é esperar que seu pai fique bem para que possamos leva-los ambos para casa ok? - Carolina comentou em uma mistura de consolo e advertência, passando os dedos pelo fino queixo da menina que deu um sorriso simpático.

4

Juliano em outro momento se importaria muito em saber o que estava acontecendo na rua, por que as pessoas comentavam assustadas, por que tinha um mendigo no chão e por que Suzana tentava desafiadoramente desenrolar sua língua, mas se reservou a observar como sua amada realizava seu trabalho de médica com maestria. Se conteu em não correr até ela e dizer o que tinha visto, pois poderia atrapalhar.
Suzana estava agaixada, no meio de várias pessoas que formavam um círculo curioso em volta deles, a quem mais de uma vez pedira para se afastar para que o deixassem respirar. Tentava reanimar o homem deitado mas estava perdendo as esperanças, nunca sentira-se assim em sua vida de enfermeira. Nunca deixara um paciente escapar, sempre fizera o melhor que pudera e isso sempre fora o suficiente. Mas esse senhor não só estava perdendo a batalha para a convulsão. Parecia que ele estava querendo isso, estava entregando sua vida, mas por que propósito?
Então ela ouviu o barulho de sinos, que soavam de uma maneira extremamente familiar, suas mãos afrouxaram no corpo do homem e ela distraiu-se por uma fração de segundo, e só no que conseguia pensar era no buque de rosas brancas e vermelhas.

texto de Robson "Meteoro" Rodrigues/ CONTINUA...

3 comentários:

  1. varios personagens....
    estou me empolgando!!!!!
    será que o segredo do universo vai ser disvendado?
    bjs!!!!

    www.gugaoliveira.blogspot.com

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  2. Ótimo texto, vou acompanhar. =*

    http://king-of-notebook.blogspot.com/

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  3. O "Capaz" no segundo capítulo é uma surpresa Sui Generis, tem mtas referências literárias bem claras, talvez um pouco de Thomas Harris fizesse bem nesse momento, fica a sugestão!!! Meteoro, tu tens te dado mto bem pra quem tá nas primeiras histórias, parabéns, segue na peleia que tu vai longe!!!

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